Fui demitido por justa causa. Isso pode ser revertido?
A justa causa só é válida quando a conduta está entre as faltas graves listadas no art. 482 da CLT e quando a empresa consegue prová-la. A Justiça do Trabalho também costuma verificar se a punição foi aplicada logo depois de a empresa saber do fato e se ela é proporcional ao que aconteceu. Se algum desses pontos falhar, a dispensa pode ser questionada. Caso a justa causa seja afastada, ela passa a ser tratada como dispensa sem justa causa, com as verbas correspondentes. Cada situação depende das provas e do histórico do contrato.
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O que a lei considera falta grave
As faltas que permitem a justa causa estão listadas no art. 482 da CLT. Entre elas estão o ato de improbidade, a desídia no desempenho das funções, o ato de indisciplina ou de insubordinação e o abandono de emprego. A lista é da lei: uma conduta que não se encaixa em nenhuma dessas hipóteses não autoriza a justa causa. E, mesmo quando se encaixa, a gravidade precisa ser suficiente para a punição máxima; do contrário, a aplicação da justa causa pode ser considerada desproporcional. Abaixo estão os motivos mais comuns e o que costuma ser analisado em cada um.
Justa causa por faltas
A CLT não fixa um número de faltas que autorize a justa causa. Faltas sem justificativa repetidas costumam ser enquadradas como desídia (art. 482, "e", da CLT). Já as ausências que a própria lei permite sem prejuízo do salário, previstas no art. 473 da CLT, não contam como falta.
A CLT também não exige, de forma expressa, advertência e suspensão antes da dispensa. Mesmo assim, o TST já manteve a anulação de uma justa causa aplicada depois de faltas seguidas sem nenhuma punição intermediária, por considerar a pena desproporcional. Em outro caso, em que as faltas tinham sido punidas antes da dispensa, a justa causa foi mantida. Por isso, a análise olha o histórico completo: quantas faltas houve, se foram justificadas e se houve punições antes. A lei ainda limita a suspensão: mais de 30 dias seguidos equivalem a uma dispensa injusta (art. 474 da CLT).
Justa causa por abandono de emprego
O abandono de emprego está no art. 482, "i", da CLT. A Súmula 32 do TST, reafirmada pelo tribunal em recurso repetitivo, presume o abandono quando o trabalhador não volta ao serviço em até 30 dias depois do fim do benefício previdenciário e não justifica a ausência. A súmula trata do retorno depois do benefício do INSS.
A intenção de abandonar também costuma ser analisada. Em um caso, o TST anulou a justa causa de um trabalhador que ficou mais de 30 dias sem trabalhar depois da alta, porque a empresa não comprovou que ele pretendia abandonar o emprego.
Atestado falso e acusação de improbidade
A apresentação de atestado médico falso costuma ser enquadrada como ato de improbidade (art. 482, "a", da CLT). Nesse caso, o TST já entendeu que a gravidade do ato pode justificar a dispensa mesmo sem punições anteriores. Como a justa causa é um fato alegado pela empresa, cabe a ela provar a falsidade (art. 818, II, da CLT).
Quando a acusação de improbidade se revela infundada ou não é comprovada na Justiça, o TST fixou, em recurso repetitivo (Tema 62), que a reversão da justa causa gera reparação por dano moral.
Indisciplina ou insubordinação
Indisciplina e insubordinação estão no art. 482, "h", da CLT. Em um caso, o TST manteve a anulação da justa causa aplicada como insubordinação a um trabalhador que registrou o ponto e foi embora dizendo que estava passando mal: a empresa não comprovou reincidência nem aplicou medidas intermediárias, e a decisão regional entendeu que houve falha de comunicação, e não desrespeito à autoridade. Punir uma falta muito tempo depois também pode configurar perdão tácito: em outro caso, a punição aplicada 18 meses depois da insubordinação foi anulada.
Requisitos para a justa causa ser válida
Além de a conduta se encaixar em uma das hipóteses legais, costuma-se exigir que a penalidade seja aplicada logo após o conhecimento do fato pela empresa, que não haja dupla punição pela mesma falta, e que a gravidade da conduta seja proporcional à penalidade máxima aplicada. A ausência desses requisitos pode fragilizar a justa causa aplicada.
Esses requisitos não estão escritos na CLT: são critérios aplicados pela Justiça do Trabalho.
- Imediatidade: a empresa deve punir logo depois de saber do fato. Em um caso, o TST considerou que quatro meses entre a última punição e a dispensa caracterizavam perdão tácito. A lei não fixa um prazo em dias.
- Proporcionalidade: a punição máxima precisa corresponder à gravidade da falta.
- Dupla punição: uma falta já punida com advertência ou suspensão não pode ser punida de novo com a dispensa. Em um caso, o TST manteve a decisão que não reconheceu a justa causa porque as mesmas faltas foram punidas mais de uma vez.
Quem precisa provar a justa causa
Pelo art. 818 da CLT (e pelo art. 373 do Código de Processo Civil), cabe a quem alega um fato que impede o direito da outra parte prová-lo. A justa causa é justamente o fato que a empresa usa para não pagar as verbas da dispensa sem justa causa; por isso, em regra, a prova cabe a ela. Há decisões, mantidas pelo TST, que reverteram a justa causa porque as provas não foram suficientes para comprovar a falta. Em situações específicas, o juiz pode distribuir essa responsabilidade de outra forma, por decisão fundamentada (art. 818, § 1º, da CLT).
O que muda se a justa causa for revertida
Quando a Justiça do Trabalho reconhece que a justa causa não deveria ter sido aplicada, a dispensa passa a ser tratada como sem justa causa, o que costuma gerar direito, quando cabíveis, a aviso prévio, 13º e férias proporcionais, FGTS com a multa de 40% e, quando os requisitos são atendidos, ao seguro-desemprego, verbas normalmente negadas em uma dispensa por justa causa. O saldo de salário dos dias trabalhados é devido em qualquer forma de desligamento, inclusive na justa causa.
O aviso prévio é proporcional ao tempo de serviço, com no mínimo 30 dias (art. 7º, XXI, da Constituição e Lei 12.506/2011). Para quem tinha estabilidade, como a gestante, o empregado que sofreu acidente de trabalho ou o membro da CIPA, a análise é específica.
Prazo para questionar
A lei fixa um prazo: a ação trabalhista pode ser proposta em até 2 anos depois do fim do contrato, alcançando os créditos dos últimos 5 anos (art. 7º, XXIX, da Constituição e art. 11 da CLT). Quanto tempo o processo leva depende de cada caso e não é possível prever.
Documentos e provas que costumam ajudar
- Carta ou comunicado de dispensa por justa causa, com o motivo alegado
- Advertências e suspensões anteriores, se houver
- Mensagens, e-mails ou registros relacionados ao fato alegado
- Testemunhas presentes na situação que motivou a dispensa
- Carteira de trabalho e histórico do contrato
- Termo de rescisão e comprovantes de pagamento (a entrega deve ocorrer em até 10 dias do fim do contrato, art. 477, § 6º, da CLT)
- Espelhos de ponto e contracheques
- Atestados e comprovantes de entrega à empresa
- Documentos do INSS (alta ou benefício), em casos de abandono
O que a análise do caso examina
A análise depende dos documentos e do histórico do contrato. Ela costuma examinar:
- o motivo escrito na comunicação da dispensa e se ele está no art. 482 da CLT;
- as provas que a empresa tem ou diz ter;
- o histórico do contrato: advertências, suspensões e tempo de casa;
- o tempo entre o fato e a dispensa;
- se havia estabilidade;
- o prazo para agir.
Este texto explica a regra geral. Só a análise dos documentos permite dizer se, no seu caso, a justa causa pode ser questionada. O atendimento é feito em Jundiaí e região e também online, em todo o Brasil.
Quais são as dúvidas mais comuns sobre justa causa?
É fácil reverter uma justa causa?
Não há resposta única. Depende das provas da empresa, do motivo alegado e do histórico do contrato. Em regra, cabe à empresa comprovar a falta (art. 818 da CLT).
Quantas faltas dão justa causa?
A CLT não fixa um número. A análise considera a repetição das faltas, se elas foram justificadas e se houve punições anteriores.
Qual o prazo para entrar com a ação?
Até 2 anos depois do fim do contrato, alcançando os créditos dos últimos 5 anos.
Quantos dias sem trabalhar configuram abandono de emprego?
A Súmula 32 do TST presume o abandono quando o trabalhador não volta ao serviço em até 30 dias depois do fim do benefício previdenciário e não justifica a ausência. A intenção de abandonar também costuma ser analisada.
Se a justa causa for revertida, o que muda?
A dispensa passa a ser tratada como sem justa causa, com as verbas correspondentes quando cabíveis: aviso prévio, 13º e férias proporcionais, FGTS com a multa de 40% e seguro-desemprego, se os requisitos forem cumpridos.
Esse tema está diretamente relacionado à área de demissão e verbas rescisórias. Veja também o que a análise do caso examina.
Fontes consultadas
- CLT art. 482: rol das faltas que constituem justa causa, entre elas improbidade (a), desídia (e), indisciplina ou insubordinação (h) e abandono de emprego (i): www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452compilado.htm
- CLT arts. 818, II e § 1º, 474, 477, § 6º, e 11: prova do fato impeditivo cabe à empresa (com distribuição diversa por decisão fundamentada), suspensão acima de 30 dias equivale a dispensa injusta, 10 dias para pagar a rescisão e prescrição de 5 anos até 2 anos após o fim do contrato: www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452compilado.htm
- TST Súmula 32 (reafirmada no IRR 226): presume-se o abandono se o trabalhador não retorna em 30 dias após a cessação do benefício previdenciário nem justifica: www.tst.jus.br/documents/d/guest/livrointernet-12-pdf
- TST Tema 62 (repetitivo): a reversão da justa causa por improbidade infundada ou não comprovada gera dano moral in re ipsa: www.tst.jus.br/documents/10157/0/IRR062+(1).pdf/9fcd4c3b-1f6a-de24-9e35-6123ecec
- Constituição art. 7º, XXI e XXIX: aviso prévio proporcional de no mínimo 30 dias e ação trabalhista com prescrição de 5 anos, até 2 anos após o fim do contrato: www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
- Lei 12.506/2011, art. 1º: aviso prévio de 30 dias mais 3 dias por ano de serviço, até 90 dias: www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12506.htm
Juliana de Souza Campos
OAB/SP nº 202.129Advogada com mais de 20 anos de experiência. Desde 2016, dedica-se exclusivamente a representar trabalhadores em causas como rescisões, assédio, acidentes de trabalho e demais demandas trabalhistas.
Este conteúdo é disponibilizado em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB. Possui caráter exclusivamente informativo e educativo, não representando promessa ou garantia de resultado. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
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