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Direitos do Trabalhador

Pedi demissão. O que eu recebo?

Juliana de Souza Campos · 25 de fevereiro de 2026 · 9 min de leitura

Resposta direta

Ao pedir demissão, o trabalhador tem direito ao saldo de salário, férias vencidas e proporcionais com um terço, e 13º salário proporcional. Em regra, não há acesso ao FGTS acumulado, à multa de 40% nem ao seguro-desemprego.

Quero falar sobre verbas rescisórias →

O que você recebe ao pedir demissão?

Quem pede demissão tem direito ao saldo de salário referente aos dias trabalhados no mês, às férias vencidas (se houver período completo não gozado) acrescidas de um terço, às férias proporcionais também com o terço adicional, e ao 13º salário proporcional aos meses trabalhados no ano.

As férias proporcionais são calculadas na proporção de 1/12 por mês de serviço ou fração superior a 14 dias (art. 146, parágrafo único, da CLT). Elas são devidas mesmo para quem sai antes de completar um ano de empresa (Súmula 261 do TST, reafirmada pelo tribunal em 2025), e o terço constitucional incide também sobre elas (Súmula 328 do TST). O 13º segue lógica parecida: 1/12 por mês de serviço no ano, e a fração igual ou superior a 15 dias conta como mês inteiro (Lei 4.090/1962, art. 1º, §§ 1º e 2º).

Se as férias vencidas já tinham passado do prazo para serem concedidas, elas são pagas em dobro (arts. 137 e 146 da CLT). Veja mais no texto sobre férias em dobro.

Como fazer a conta na prática?

Um exemplo, só para visualizar a lógica. Uma vendedora entrou em 1º de fevereiro de 2025, ganha R$ 3.000 por mês e teve como último dia de trabalho 20 de agosto de 2026. Ela nunca tirou férias.

  • Saldo de salário: 20 dias de agosto, R$ 2.000.
  • Férias vencidas: o período de fevereiro de 2025 a janeiro de 2026 está completo. São R$ 3.000 mais um terço, R$ 4.000.
  • Férias proporcionais: de fevereiro a julho de 2026 são 6 meses, e os 20 dias de agosto passam de 14 dias, então contam como mais um mês. São 7/12 de R$ 3.000 (R$ 1.750) mais um terço, R$ 2.333,33.
  • 13º proporcional: de janeiro a julho são 7 meses, e os 20 dias de agosto contam como mês inteiro. São 8/12 de R$ 3.000, R$ 2.000.

O total bruto fica em R$ 10.333,33, antes dos descontos legais e de um eventual desconto do aviso prévio não cumprido. Cada caso tem datas, médias e adicionais próprios, que mudam a conta.

O que muda em relação à demissão sem justa causa?

A diferença mais sentida costuma estar no que não é recebido: em regra, quem pede demissão não tem acesso ao FGTS acumulado durante o contrato, não recebe a multa de 40% sobre esse saldo, e não tem direito ao seguro-desemprego. Esses direitos, em regra, ficam restritos às demissões sem justa causa e à rescisão indireta.

O que acontece com o meu FGTS?

O dinheiro não some. O saldo continua na sua conta do FGTS, só não pode ser sacado por causa do pedido de demissão. A Lei 8.036/1990 lista outras situações em que a conta pode ser movimentada mais tarde, entre elas (art. 20):

  • aposentadoria;
  • compra da casa própria, cumpridas as condições da lei;
  • 3 anos seguidos fora do regime do FGTS;
  • algumas doenças graves do trabalhador ou de dependente;
  • idade igual ou superior a 70 anos.

Quem optou pelo saque-aniversário continua podendo sacar a parcela anual no mês do aniversário (art. 20, XX). Veja mais no texto sobre saque-aniversário e demissão.

Como funciona o aviso prévio no pedido de demissão?

Quem pede demissão também deve cumprir aviso prévio, que em regra é de 30 dias (art. 487 da CLT prevê 8 dias só para quem recebe por semana ou em prazo menor e tem menos de um ano de empresa), trabalhando normalmente nesse período, ou pode ser dispensado do cumprimento pela empresa. Quando a empresa dispensa o cumprimento, não há obrigação de indenizar esse período, ao contrário do que ocorre na demissão sem justa causa. Se o próprio trabalhador não cumprir o aviso e a empresa não dispensar o cumprimento, o valor correspondente pode ser descontado do acerto rescisório.

A redução de 2 horas por dia, ou de 7 dias corridos, durante o aviso vale quando a rescisão foi promovida pelo empregador (art. 488 da CLT). No pedido de demissão, a lei não prevê essa redução. Se você já tem outro emprego em vista, o caminho costuma ser pedir à empresa, por escrito, a dispensa do cumprimento.

Posso desistir depois de pedir demissão?

Pode tentar. Durante o aviso prévio, quem deu o aviso pode reconsiderar antes de o prazo terminar, mas a outra parte decide se aceita ou não (art. 489 da CLT). Se a empresa aceitar, ou se você continuar trabalhando depois do fim do aviso, o contrato segue como se o aviso não tivesse sido dado. Por segurança, vale fazer o pedido de reconsideração por escrito e guardar a resposta.

Qual é o prazo para o pagamento?

O pagamento das verbas rescisórias deve ocorrer em até 10 dias corridos contados do término do contrato, independentemente do tipo de aviso prévio. O atraso nesse prazo pode gerar multa em favor do trabalhador.

O termo de rescisão deve trazer a natureza e o valor de cada parcela paga, e a quitação vale apenas para essas parcelas (art. 477, § 2º, da CLT). Desde a reforma de 2017, a CLT não exige mais que o acerto seja feito no sindicato: o antigo § 1º do art. 477 foi revogado. Veja também o que fazer quando a rescisão atrasa.

Pedido de demissão, acordo ou rescisão indireta: qual é a diferença?

  • Pedido de demissão: a saída parte de você. Não há saque do FGTS, multa de 40% nem seguro-desemprego.
  • Acordo entre as partes (art. 484-A da CLT): o aviso prévio indenizado e a multa do FGTS são pagos pela metade, as demais verbas são integrais, o saque do FGTS vai até 80% e não há seguro-desemprego. Veja o texto sobre demissão por acordo.
  • Rescisão indireta (art. 483 da CLT): é quando a empresa comete falta grave, como não cumprir as obrigações do contrato. O trabalhador pode considerar o contrato rescindido e pedir as verbas, e a lei permite o saque do FGTS nesse caso (Lei 8.036/1990, art. 20, I). Veja como funciona a rescisão indireta.

Antes de pedir demissão, o que vale conferir?

Antes de formalizar o pedido, pode valer a pena avaliar se existem verbas em aberto, como horas extras habituais não pagas, que poderiam ser cobradas, e se a situação não configuraria, na verdade, uma rescisão indireta, quando a empresa comete falta grave que justifica o fim do contrato com os direitos de uma demissão sem justa causa.

Também vale puxar o extrato do FGTS e conferir se os depósitos foram feitos mês a mês. E, se a ideia de sair partiu da empresa, o documento precisa refletir isso: assinar um pedido de demissão que não foi seu muda o que você recebe.

Documentos úteis para conferir o seu caso

  • Carteira de trabalho (física ou digital)
  • Últimos holerites
  • Carta ou comunicado de pedido de demissão, se formalizado por escrito
  • Extrato do FGTS
  • Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho (TRCT), quando emitido

Esse tema está diretamente relacionado à área de demissão e verbas rescisórias.

Perguntas frequentes sobre pedido de demissão

Pedi demissão com menos de um ano de empresa. Recebo férias?

Sim. Pela Súmula 261 do TST, quem pede demissão antes de completar 12 meses de serviço tem direito a férias proporcionais, e o terço constitucional também incide sobre elas (Súmula 328 do TST).

Posso sacar o FGTS se eu pedir demissão?

Em regra, não. O saldo continua na conta e pode ser sacado em outras situações previstas no art. 20 da Lei 8.036/1990, como aposentadoria, compra da casa própria ou 3 anos seguidos fora do regime do FGTS.

Sou obrigado a cumprir o aviso prévio?

Em regra, sim, a menos que a empresa dispense o cumprimento. Se você não cumprir e a empresa não dispensar, ela pode descontar os salários do período (art. 487, § 2º, da CLT).

Posso me arrepender do pedido de demissão?

Você pode pedir a reconsideração antes de acabar o aviso prévio, mas a empresa decide se aceita ou não (art. 489 da CLT). Se aceitar, o contrato continua como se o aviso não tivesse sido dado.

Quem pede demissão tem direito a seguro-desemprego?

Não. O seguro-desemprego é voltado ao trabalhador dispensado sem justa causa, inclusive na rescisão indireta (Lei 7.998/1990, arts. 2º e 3º).

Em quanto tempo a empresa tem que pagar a rescisão?

Em até 10 dias corridos depois do fim do contrato. O atraso pode gerar multa a favor do trabalhador no valor de um salário (art. 477, §§ 6º e 8º, da CLT).

Fontes consultadas
Juliana Campos, advogada trabalhista

Juliana de Souza Campos

OAB/SP nº 202.129

Advogada com mais de 20 anos de experiência. Desde 2016, dedica-se exclusivamente a representar trabalhadores em causas como rescisões, assédio, acidentes de trabalho e demais demandas trabalhistas.

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Este conteúdo é disponibilizado em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB. Possui caráter exclusivamente informativo e educativo, não representando promessa ou garantia de resultado. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Pedido de demissão: o que vale no seu caso?

Este conteúdo é informativo. Para entender como a lei se aplica ao seu caso específico, fale diretamente com a Dra. Juliana.